quinta-feira, 15 de maio de 2008

O medo do novo


Tenho pensado muito a respeito...

“Temos que aceitar a nossa existência em toda a plenitude possível; tudo, inclusive o inaudito, deve ficar possível dentro dela. No fundo, só essa coragem nos é exigida: a de sermos corajosos em face do estranho, do maravilhoso e do inexplicável que se nos pode defrontar. Por se terem os homens revelado covardes neste sentido, foi a vida prejudicada imensamente. As experiências a que se dá o nome de ‘aparecimentos’, todo o pretenso mundo ‘sobrenatural’, a morte, todas essas coisas tão próximas de nós têm sido tão excluídas da vida, por um defensiva cotidiana, que os sentidos com os quais as poderíamos aferrar se atrofiaram. Nem falo em Deus. Mas a ânsia em face do inesclarecível não empobreceu apenas a existência do indivíduo, como também as relações de homem para homem, que por assim dizer foram retiradas do leito de um rio de possibilidades infindas para ficarem num ermo lugar da praia, fora dos acontecimentos. Não é apenas a preguiça que faz as relações humanas se repetirem numa tão indizível monotonia em cada caso: é também o medo de algum acontecimento novo, incalculável, frente ao qual não nos sentimos bastante fortes. Somente quem está preparado para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, poderá viver sua relação com outrem como algo de vivo e ir até o fundo de sua própria existência. Se imaginarmos a existência do indivíduo como um quarto mais ou menos amplo, veremos que a maioria não conhece senão um canto do seu quarto, um vão de janela, uma lista por onde passeiam o tempo todo, para assim possuir certa segurança. Entretanto, quão mais humana, aquela perigosa incerteza que faz os prisioneiros dos contos de Poe apalparem as formas de suas terríveis prisões e não desconhecerem os indizíveis horrores de sua moradia. Nós outros, aliás, não somos prisioneiros. Em redor de nós não há armadilhas e laços, nada que nos deva angustiar ou atormentar. Estamos colocados no meio da vida como no elemento que mais nos convém. Também, em conseqüência de uma adaptação milenar, tornamo-nos tão parecidos com ela que, graças a um feliz mimetismo, se permanecermos calados, quase não poderemos ser distinguidos de tudo o que nos rodeia.”
(Cartas a um jovem poeta de Rainer Maria Rilke)

terça-feira, 13 de maio de 2008

Quando a internet pára


Ontem a noite me senti uma personagem de Saramago, quando a internet teimou em não obedecer ao meu comando de fluir na rede. Fiquei quase um hora na frente do computador, apertando botões, desconectando e re-conectando fios, passando RegCleaner, CCleaner, Avast, na esperança de que tudo voltasse ao “normal”, até que parei. Distanciei-me de mim e pude observar a cena na qual eu estava inserida, um mero objeto do sistema, cuja anormalidade da dependência, passou a ser considerada normal. Isso me afetou. E, mesmo consciente, tive que fazer um esforço enorme para apertar o botão, desligar. A difícil “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. Ainda bem que não sou a única a, de vez em quando, abrir os olhos e enxergar, como a pobre mulher do médico, no livro Ensaio sobre a Cegueira do Saramago.

sábado, 10 de maio de 2008

Borboleta? Talvez amanhã.


Depois de 12 horas dentro de uma Universidade, assistindo 8 aulas praticamente seguidas, e fazendo o referencial teórico de um trabalho, me reservo o direito de respirar. Minha companheira de trabalho, Fernanda, foi ótima, conseguimos produzir boa parte do texto e ainda conversar sobre Saramago, mais especificamente sobre “Ensaio sobre a Cegueira” e “A Jangada de Pedra”, esse último ainda não li, Márquez, falamos sobre os clássicos “Cem anos de solidão” e “O amor nos tempos de cólera”, quase entramos em Clarice, mas o tempo que tínhamos era pouco pra dela. Estávamos tão concentradas que nem vimos a hora passar, até sermos convidadas a nos retirar da faculdade, pois ela estava fechando!! Resolvemos continuar o trabalho no bar. Enquanto todos assistiam, concentrados, ao jogo de futebol, nós estávamos empolgadíssimas, falando de conceitos de Movimento, História, Arte, Mosaico, Intervenção, entre outros!! Nem sei quem estava jogando! Alguém sabe?

E aqui estou, com sono, cansada, e necessitando de uma massagem relaxante. Será que ainda agüento um filminho pra fechar a noite? Será que estou fugindo de alguma coisa? Melhor averiguar, preciso ficar um pouco comigo, talvez...

“Estamos socialmente condicionados a considerar a imersão total no espaço e no tempo exteriores como coisa normal e saudável. A imersão no espaço e no tempo interiores tende a ser considerada um afastamento anti-social, um desvio inválido, patológico per se e, de certo modo, desabonador.
Respeitamos o viajante, o explorador, o alpinista, o astronauta. Para mim, faz muito mais sentido como projeto – na verdade, projeto de urgência desesperada em nossa época – explorar o espaço e o tempo interiores da mente. Talvez isso seja uma das poucas coisas que ainda fazem sentido em nosso contexto histórico. Estamos tão desligados deste, que muita gente se pergunta a sério se ele existe.” (Laing, R. D. A política da Experiência)

É, talvez seja isso!!!


Ou então: “Meu mistério é simples: eu não sei como estar viva.” (Clarice Lispector)

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Minhas memórias escolares


Esses dias não pude aparecer pois me ocupei em escrever minhas Memórias de Banco Escolar, trabalho da matéria de Políticas, com a professora Dinéia. E já que estou aqui mesmo, vou postar uns trechos desse trabalho que foi muito prazeroso.


1984 – Pré 2

Dois episódios me marcaram e acho que por isso ainda me lembro deles. O primeiro se refere a uma aluna bem loirinha, que roubava coisas das pessoas e era muito mentirosa, um dia eu a vi pegando minha régua e guardando em sua bolsa branca quadrada, esperei a professora entrar na sala, não me lembro porque ela não estava, e disse que a tal menina andava pegando coisas das pessoas, e que tinha pego a minha régua, ela jurou que era mentira, parecia realmente sincera, fui até a bolsa dela e peguei a régua, não me lembro as conseqüências desse ato, só da raiva que senti naquele dia.
O outro fato foi quando uma aluna, que era minha amiga, a Raquel, fez xixi na sala, enquanto fazia a lição, todos começaram a rir, ela continuou escrevendo como se nada estivesse acontecendo, fui uma das poucas que não riu, pelo contrário, fiquei tão envergonhada, como se aquilo estivesse acontecendo comigo. Talvez porque eu soubesse, em menor escala, o que ela estava sentindo, pois tive enurese noturna até os nove anos, e já tinha ouvido muitas piadinhas e risadinhas das minhas irmãs e primas. A professora encarou com muita naturalidade, e repreendeu as risadinhas.

Em 1987, entrei para a 3ª série, estudava numa sala que tinha duas portas, uma do lado da outra, que davam pro mesmo lugar, nunca entendi aquilo, uma das portas ficava sempre fechada, e meu lugar na sala era em frente esta porta. Tia Vera Lúcia, ela era tão bonita e um pouco brava.
Esse ano estava na moda usar lapiseira, mas eu não tinha uma, então resolvi criar minha própria lapiseira. Peguei meu tubo de cola e coloquei um pedaço de grafite do meu lápis, ficou fantástica a minha lapiseira, usei durante dias, até que a cola estourou, e fez muita sujeita, nunca vou esquecer a bronca que levei da professora, ela achou que eu estava agindo maldosamente, fazendo bagunça, e eu só estava escrevendo com minha super lapiseira.
Sempre fui uma aluna quieta, bom coração, ela não devia estar em um bom dia, pois se pensasse um pouquinho saberia que eu não seria capaz de fazer aquilo por maldade.


As vezes sinto saudade daquela menininha loirinha dos olhos claros, de sua coragem de brigar por justiça, sua capacidade de superar qualquer dificuldade e transformá-la em algo “super”, de seu riso fácil e encantador. Claro que tenho muito daquela menininha, mas perdi a inocência faz tempo, o que me consola, é não ter, ainda, perdido a fé nas pessoas.

sábado, 3 de maio de 2008

Ausencia


Acabo de ouvir a belíssima canção “Ausencia” de Goran Bregovic, na voz da maravilhosa Cesária Évora. Ainda estou me recuperando, secando as lágrimas, massageando meu coração e suspirando, para voltar ao chão. Essa música me traz muitas lembranças, inclusive lembranças de palco, mas ela, por si só, é de uma intensidade extra cotidiana. Na voz de Cesária então, que é de tamanha força plácida e luminosa, impossível não me comover.

Pra quem se interessar, escutem a música no Youtube, o endereço é:

http://br.youtube.com/watch?v=RXfzyc92EuI

“Ausencia, ausencia
Si asa um tivesse
Pa voa na esse distancia
Si um gazela um fosse
Pa corrê sem nem um cansera

Anton ja na bo seio
Um tava ba manchê
E nunca mas ausencia
Ta ser nôs lema...”

(Imagem do espetáculo "Oito", na foto a atriz Renata Augusto, fotografia de Águida Amaral)

sexta-feira, 2 de maio de 2008

"O gosto do vivo."


Enfim, terminei o livro “A paixão segundo G.H.”, de Clarice Lispector e como doeu!! Esse livro me revirou, tanto no aspecto físico quanto no moral, espiritual, existencial... Senti-me tão a flor da pele, e muito incomodada, na maior parte do livro. Não sei se demorei pra ler, porque realmente tinha muitos trabalhos e livros da faculdade pra terminar, ou se usei tudo isso como desculpa pra não terminar o livro, que ao mesmo tempo me fascinava e eu desejava que não tivesse fim, como eu queria me livrar do desconforto que era me reconhecer, na dor, na desistência, no medo de errar, na solidão.
Eu desejava uma solução, uma organização, mas pressentia, a cada virada de página, que o que eu iria encontrar era de uma outra natureza, “A coisa é tão delicada que eu me espanto de que ela chegue a ser visível.”
Não é de outra natureza, mas é sutil, é “não humana” de tão humana que é. É antes de tudo, amor. Sobrevivi, e recomendo que façam essa jornada interior, conduzidos por Clarice, ofereçam suas mãos e confiem.

“Entendi que, botando na minha boca a massa da barata, eu não estava me despojando como os santos se despojam, mas estava de novo querendo o acréscimo. O acréscimo é mais fácil de amar.
E agora não estou tomando tua mão para mim. Sou eu quem está te dando a mão.
Agora preciso de tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: por amor. Como eu, não terás medo de agregar-te à extrema doçura enérgica do Deus. Solidão é ter apenas o destino humano.E solidão é não precisar. Não precisar deixa o homem muito só, todo só.
(...)
Ah, meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior. O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça – que se chama paixão.”

Mais uma coisa: “E não me esquecer, ao começar o trabalho, de me preparar para errar.”

(Imagem: pintura de Auguste Renoir - Banhista sentada)

PS: Obrigada querido René, pela indicação e insistência para que eu lesse o livro, entrará em minha lista de favoritos, com certeza.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

"Sou uma gaivota... Não! Sou uma atriz! É isso!"


Passei parte do dia pensando sobre minha profissão de artista. Sinto saudade do palco, e já espalhei aos quatro cantos que esse ano pretendo voltar a atuar. Mas já não posso fazer qualquer coisa, pois a muito tempo isso deixou de ser um exercício meramente exibicionista. Preciso criar, tenho muito a dizer em cima do tablado, essa sensação de falta, é quase física. Estar lá me ajuda a eu me sentir mais viva. A decisão já foi tomada, e vou cumpri-la, esse ano estarei de volta!! Mas ainda não sei em que velocidade!! Como disse Nina, personagem de "A gaivota" de Tchecov:
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"O importante não é a glória, nem o brilho ou a realização dos sonhos. E sim saber sofrer, saber carregar a cruz e ter fé. Eu tenho fé, e não sinto tanta dor. E quando penso em minha profissão, já não tenho medo da vida."
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